A Jornada do Escritor – Estruturas Míticas para Contadores de Histórias e Roteiristas [Christopher Vogler, 1997, Ampersand Editora]

De certa feita, no programa Manhattan Connection, Paulo Francis e Caio Blinder comentavam um filme que entrava no circuito. Caio Blinder, metódico, tecia algumas considerações equilibradas sobre o lançamento cinematográfico. Mal deixando que Blinder terminasse, Paulo Francis entrou desancando o filme e dizendo que aquilo era a mesma historinha de sempre. Paulo Francis, com seu jeito peculiar, nem tinha se ocupado em assistir ao filme. O detalhe foi apontado por Blinder, ao que Francis retrucou: – Não preciso ir ao cinema, já vi todos os filmes, essas histórias são sempre a mesma coisa!

A mesma história? Os roteiros se repetem? Existe uma estrutura padrão para uma história? Na introdução do livro A Jornada do Escritor, o autor Christopher Vogler conta como usou o livro O Herói de Mil Faces, escrito pelo mitólogo Joe Campbell, como base para escrever um memorando de sete páginas, o Guia Prático de O Herói de Mil Faces. O guia foi escrito para os estúdios Disney e se tornou leitura obrigatória para quem criava (?) em Hollywood. Diz Vogler: “Ouvi contar que executivos de outros estúdios estavam dando o folheto para autores, diretores e produtores, como guia de modelos universais e comerciais de histórias.” Convenhamos que o finado Paulo Francis tinha parte de razão sobre a ausência de criação. A indústria de sonhos de Hollywood estava mais preocupada em seguir uma fórmula para produzir em série, do que gerar coisas novas.

A partir desse memorando inicial, Vogler escreveu A Jornada do Escritor – Estruturas Míticas para Contadores de Histórias e Roteiristas. O livro apresenta o modelo geral das histórias. Modelo este que pode ser usado tanto para analisar a Odisséia, O Mágico de Oz ou … Um Tira da Pesada. Para quem gosta de discutir um livro ou um filme, a Jornada do Escritor é ótima leitura. A familiarização com os arquétipos das histórias, como o Guardião do Limiar, a Provação Suprema ou o Mentor, clareia nossa visão da estrutura que rege as histórias, permitindo avaliá-las com mais critério. Por exemplo, de posse desse modelo, podemos saborear como o filme Psicose é magnífico. O mestre Hitchcock abandona o padrão de invencibilidade do herói e mata a heroína, interpretada por Janet Leigh, ainda no meio do filme. Quem viu Psicose lembra da estranha sensação que sentíamos ao perceber que a personagem principal do filme havia sido excluída. Perplexos, ficamos apenas com o esquisito Norman Bates para carregar a história. A linha do filme havia sido virada de pernas para o ar. Ali estava Hitchcock, que violava as regras e desbrava novas possibilidades para as histórias.

A Jornada do Escritor é uma boa referência para quem gosta de ler livros, ver filmes e pensar um pouco sobre eles. Para aqueles que praticam, mesmo amadoristicamente, a crítica literária ou do cinema, é leitura obrigatória. Vogler escreve num formato didático, as vezes um pouco enfadonho ou repetitivo, mas o saldo é positivo. Como em qualquer modelo, alguns elementos nos parecem pouco aderentes. Mas o modelo geral proposto é bastante robusto e funciona como útil ferramenta de análise. Depois da experiência da Jornada do Herói, as pessoas passam a ter uma nova visão crítica dos romances e filmes.

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