Oscar de Melhor ator

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será que ele ganha?

O cinemão americano se habituou a produzir filmes destinados a concorrer ao Oscar de Melhor Ator (ou Atriz). A fórmula é bem conhecida. Seleciona-se um ator com alguma fama estabelecida e escolhem-se personagem e roteiro que o façam aparecer bastante no filme, de preferência, com certa proximidade da câmera, para que possamos apreciar as caras e bocas que faz. À fórmula padrão, acrescentou-se a notória patologia americana pelo bizarro. Hollywood gosta de personagens deficientes físicos ou mentais para concorrerem à categoria de Melhor Ator. Acham que estou exagerando? Vejam só o retrospecto recente dos prêmios:

Comecemos em 1989. Neste ano, Dustin Hoffman arrebanhou o prêmio como o autista de Rain Man. Tom Cruiser foi escalado para ciceronear Hoffman enquanto ele balançava mundo a fora. No ano seguinte, a Academia extrapolou em prestigiar deficiências e premiou a sensível interpretação do pé esquerdo de Daniel Day Lewis. O belo rosto do ator ficou para ser homenageado em outra ocasião. Em 1991, em o Reverso da Fortuna, o personagem do ambíguo milionário acusado de matar a esposa deu o prêmio a Jeremy Irons. Mas o milionário não era maluco, dirá você, caro leitor! A regra falhara? Nem tanto. O próprio Jeremy, no discurso ao receber a estatueta, lembrava que seu duplo papel de ginecologistas malucos, em Gêmeos, era responsável por sua vitória. No ano seguinte, a Academia teve seu momento de êxtase na busca do anormal. Homenageou Anthony Hopkins pela interpretação de Hannibal, the Cannibal. O inconsciente dos gringos vibrou com o apetite do personagem. Entretanto, o destaque de Hopkins foi benigno e permitiu, por exemplo, que ele produzisse boas interpretações nos indicados Vestígios do Dia (1994) e Nixon (1996). É verdade que Hopkins deitou-se na fama e fez muito filme caça-níquel, como faz Gene Hackman, mas isso é outra história. Em 1993, a fórmula estava consagrada e foi seguida com rigor: o militar cego que Al Pacino superinterpretava foi irresistível para os velhinhos da Academia. Perfume de Mulher ganhou. Ainda acho que o melhor do filme era o perfume de Gabrielle Anwar na antológica cena em que ela dança tango com Pacino. Até hoje me lembro daquele cheiro.

Em 1994, surge Tom Hanks. A tragédia do advogado que contrai Aids foi justamente premiada. Tom Hanks carregou com maestria esta discussão sobre estigmas. Um negro (Denzel Washington) defendendo um homossexual aidético é um tratado sobre perseguição e preconceito. No ano seguinte, o prêmio nem esfriara na mão de Tom Hanks e ele, abraçado ao “Manual Para Ganhar Um Oscar”, interpretava o inteligente débil mental Forrest Gump. A combinação do carisma do ator com excelente roteiro e oportunos efeitos especiais lhe proporcionou o segundo Oscar. Hanks fez história.

A Academia tomou um porre com o repetido brilho de Tom Hanks e, em 1996, o prêmio foi para o alcoólatra terminal interpretado por Nicolas Cage. O prêmio fez mal ao ator. Cage não se recuperou da ressaca. De lá pra cá, Nicolas Cage só fez papéis ridículos, com destaque para a imbecilidade radical de Cidade dos Anjos. A má escolha daquele ano (concorriam Sean Penn, Richard Dreyfuss e Anthony Hopkins) assustou o pessoal do Oscar. No ano seguinte, voltaram ao cotidiano de escolher doentes geniais. Em Shine, Geoffrey Rush interpreta o virtuoso pianista e sua sofrida relação com o pai. Bang. Ganhou. Jack Nicholson, sempre por perto do brilho, percebeu que era fácil ganhar mais estátuas. Que tal eu fazer um escritor compulsivo, obsessivo? Tiro e queda. Em 1998, o Oscar foi para Jack em Melhor Impossível!

Em 1999, a indústria cinematográfica americana fez uma concessão às produções estrangeiras e premiou o filme A Vida é Bela e deu o Oscar de Melhor Ator a Roberto Benigni. Sua interpretação merecia e, conjugado com o fato de ser mais um filme sobre o sofrimento judeu, teve a benção de Hollywood. Pelas macaquices de Benigni na cerimônia de premiação ficou a dúvida se o deficiente mental, neste caso, era o próprio ator.

Em 2000, Kevin Spacey ganha pelo seu papel no exagerado Beleza Americana. Nós nos solidarizamos com a crise existencial de seu personagem no meio daquele bando de doidos da família e vizinhos. Além disso, todos gostamos do ator de Usual Suspects. Para concluir, no ano passado, foi a vez do garanhão australiano Russell Crowe ganhar, na superprodução Gladiador. Depois de tanto maluco, podemos dizer que este foi um personagem “normal”. Ele é a exceção que confirma a regra.

E como ficamos para 2002? Bem, temos dois malucos concorrendo. Russel Crowe tenta o bi no premeditado filme Mentes Brilhantes. Ele interpreta o gênio esquizofrênico John Nash. Tinha grandes chances, entretanto, pequenos esquecimentos no roteiro, como o fato do verdadeiro Nash ser (ou ter sido?) homossexual e de que ele era anti-semita (em se tratando de Hollywood, esta falta é eliminatória) coloca algumas pedras no sonho de Russel Crowe. O outro excepcional aparece no filme Uma Lição de Amor, em que Sean Penn faz um pai retardado que briga pela tutela da filha. Poderia ser mais piegas? Tom Wilkinson é o azarão fazendo um pai às voltas com o caso de seu filho com uma mulher mais velha. Tem poucas chances.

Os outros dois concorrentes são atores negros. Um é Will Smith, num inspirado papel de Muhammad Ali. Entretanto, duvido que Hollywood vá botar azeitona num filme sobre negros. Sobre um negro rebelde e orgulhoso como Cassius Clay. Além do mais, Ali se converteu e abraçou o Islamismo. Acho que Will Smith não emplaca.

O outro personagem negro aparece no filme Dia de Treinamento. É o corrompido e corruptor policial Alonzo, que trabalha na divisão de narcóticos, interpretado por Denzel Washington. Eu arrisco que Denzel Washington leva o Oscar este ano. Por quê? Porque Hollywood acumula uma grande dívida para com os negros. Desde Sidney Poitier que um negro não ganha. A dívida pessoal com Washington também vem crescendo. Em Hurricane, ele quase ganha. Dia de Treinamento é um filme impressionante mesmo para nós, acostumados com a convivência entre traficantes e policiais brasileiros. O roteiro faz concessões para manter o ritmo, mas funciona bem. A amoralidade do personagem de Washington cria bons momentos de tensão em que ele se sai muito bem na interpretação. Outro fator importante, que contribui para a performance de Washington, é a atuação excelente de Ethan Hawke, que concorre a melhor ator coadjuvante interpretando o policial novato que cai nas mãos de Alonzo. Assim, contra todas as regras de cautela, eu aposto que Denzel Washington, apesar de não fazer papel de retardado, débil mental etc, ganha o Oscar este ano pelo seu personagem. Mais uma vez um deficiente. No caso, uma grande deficiência moral.

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