O Dia Amargo da Mulher

prosa poesia de nossa colaboradora Eugenia Corazon

Ainda que meu corpo pecador seja molestado desde a puberdade.
Que no norte do Brasil eu seja leiloada para o prazer dos coronéis.
Que meu corpo seja exibido como suculento presunto.
Que eu faça sexo pelos cantos para poder comer.
Que a baba do desejo dos homens escorra do canto de suas bocas para meus seios.
Que o passeio no meu corpo seja o turismo do estrangeiro que vem ao Brasil.

Ainda que meu canto de tristeza não seja ouvido.
Que meu homossexualismo seja pecaminoso e perseguido.
Que a canção do meu amor tenha que ser sussurrada para minha amada.
Que eu seja surrada até a morte por amá-la.

Ainda que meu corpo não seja meu.
Que me mandem ter filhos que não quero ter.
Que me neguem o aborto e me mantenham a bordo dessa nau de loucos.

Ainda que me concedam o status de consumidora.
Que me paguem menos que aos homens.
Que eu dê minhas forças ao marido explorado quando ele volta ao lar.
Que meu marido mui generosamente me transmita a Aids.

Ainda que minha revolta seja loucura.
Que minha loucura seja feitiçaria.
Que a fogueira esteja sempre pronta para curar minha tensão pré-menstrual.

Ainda que minha cordialidade seja tomada por submissão.
Que meus direitos sejam tidos como atrevimento.
Que eu seja a mais negra.
Que eu seja a mais pobre.

Ainda assim eu resisto.
Eu sorrio.
E meu sorriso é o mais forte e radiante brilho desse pequeno universo.

[Eugenia Corazon]
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