Assédio [L’Assedio] de Bertolucci

a beleza dos contrastes

Assédio é uma história simples. Um roteiro linear, até monótono, que pode ser resumido em poucas palavras: “um europeu que se apaixona por uma refugiada africana cujo marido está preso em seu país”. O filme resultante não deveria impressionar. Talvez fosse atraente a um ou outro romântico para assistir na tevê por assinatura. Mas Assédio não corre este risco. É um Bertolucci. É um belo e envolvente filme do diretor de 1900, O céu que nos protege e Beleza Roubada. Mais uma vez, Bernardo Bertolucci é bem sucedido em roubar a beleza das emoções dos personagens e nos passá-la em primorosa embalagem.

O filme Assédio se constrói sobre os contrastes. A começar por colocar, numa mesma casa, a empregada africana que fugiu do país por motivos políticos, e um rico herdeiro europeu. Esta diferença de culturas é explorada por todo o filme. Das imagens ásperas da miserável África, somos levados a uma belíssima vila italiana onde Mr. Kinski (David Thewlis) consome preguiçosamente o tempo compondo e dando aulas de piano. Com esse contraste original dos personagens, a partir de uma repentina e direta declaração de amor, Bertolucci nos apresenta as mudanças na vida dessas duas criaturas. O paulatino empobrecimento de Mr. Kinski, a evolução de sua música, vão diminuindo a distância entre os personagens. Shandurai (Thandie Newton) passa eternos momentos tentando retirar a inexistente poeira das obras de arte que enchem a casa. Talvez tentando limpar permanente poeira que recobria sua vida na África. O processo do empenho dos bens materiais do ariano Mr. Kinski também é uma boa metáfora da dívida (ou culpa?) européia para com o vizinho continente negro. A idéia da redução da opulência da Europa para minorar o sofrimento terminal da África deve cutucar o europeu que vê o filme. Nós brasileiros, não temos este senso de diferença, convivemos permanentemente com os extremos de riqueza e miséria. Nossas culpas ficam por aqui mesmo, estão amortecidas, e vão, no máximo, até a favela mais próxima.

A bela mansão e o cotidiano de seus habitantes é explorada por certeira fotografia que bem se utiliza da arquitetura e dos fortes tons pastéis dos interiores. Som e fotografia quase se equiparam em importância nesse filme. Os diálogos pouco importam frente às expressões dos atores e à música. A música africana e a erudita são utilizados por Bertolucci para realçar as diferenças e a aproximação entre os personagens.

A atriz Thandie Newton é algo a parte dentro do filme. Sua beleza mestiça é realçada pelo fotógrafo com qualidade que se equipara a descoberta de Liv Tyler, em Beleza Roubada. Quem assistiu Missão Impossível II, pode comparar como o pretenso charme do personagem de Thandie Newton no filme é ridículo frente às intensas imagens da bela Shandurai em Assédio. Mas, convenhamos, a especialidade de John Woo não é mostrar a beleza feminina.

O filme de 1998 só nos chega agora, mas já é um dos melhores lançamentos do ano 2000. É delicioso se entregar a leitura dos parágrafos de imagens criadas pelo italiano Bernardo Bertolucci, onde os detalhes proporcionam prazer como a leitura de um Machado de Assis, onde, todo o tempo, a história e o como ela é contada competem pela nossa atenção. Bertolucci brilha.


cotação:  


Telemar torturando um carioca

mas ganhei ação contra ela na Justiça

Atualmente, as únicas empresas com crescimento acelerado são aquelas trabalhando com alta tecnologia: as empresas de Internet e as companhias telefônicas. Dentro deste boom, o fenômeno Telemar é um destaque. A empresa é a mais odiada do estado. É a número um em reclamações nos órgãos de proteção ao consumidor. Mas ela continua firme, gastando em publicidade para esconder a porcaria de serviço que nos oferece. É claro que o sofrimento do cliente Telemar acaba vindo a público. Os sites de revolta contra a Telerda proliferam. A síntese da opinião da população está na faixa colocada numa passarela em frente à Rocinha: “Telemar: vergonha do Rio de Janeiro”.

Tive também minha experiência com esta triste empresa. Conto rápido para vocês. Eu aguardava uma segunda linha há muito tempo. Em outubro do ano passado, apareceu um técnico para instalar o telefone lá em casa. Ele tentou fazer a instalação, mas diagnosticou que havia um problema na linha e teria que voltar depois. Saiu sem o telefone funcionar. Avisei a Telemar que havia aparecido esta criatura e que o telefone não funcionava. Tudo bem. Desapareceram todos. Um mês depois, chega a conta do telefone. Nenhum impulso registrado – é claro, por que não havia telefone – mas me cobravam a assinatura! Reclamei novamente que estavam me cobrando por um telefone que não havia sido instalado. Em 24 horas, veio um rapaz, confirmou que havia o problema na linha, e, em outras 24 horas, colocaram meu telefone para funcionar. Pensei que as coisas tinham se resolvido.

Eu reclamara da cobrança de R$18,00 da assinatura de um mês em que eu efetivamente não tivera telefone. Uma moça da Telemar, muito gentil, me disse que eu seria informado do resultado da minha queixa. Fui sim. Um mês depois meu telefone foi desligado sem nenhum aviso. Vejam que primor de respeito com o cliente. Eu não podia mais fazer ligações. Se eu só tivesse um telefone ou precisasse muito dele, não teria como me opor à prepotência, à chantagem da Telemar. Teria que pagar o que eles exigissem.

Começava aí minha via crucis. Reclamei que tinham me cobrando por um serviço que não existia. A Telemar me informou que depois que os fios eram instalados, eles passavam a cobrar. Boa! A Telemar era então uma empresa de instalar fios. Se o telefone funcionava ou não, isto não dizia respeito a ela.

Bem, a empresa vende serviço de comunicação por telefone. Quando tentei resolver o problema pelo telefone, fui informado que devia ir à agência da Telemar. Ridículo. Mas, a essa altura, eu já estava interessado em ver até onde ia a combinação de desrespeito, incompetência e desprezo por um cliente da Telemar. Eu fui. Uma balconista registrou a queixa que eu já havia feito por telefone e mandou religar o aparelho.

Duas semanas depois, apesar de eu estar pagando as contas regularmente (exceto os fatídicos R$18,00 da assinatura), a Telemar, provavelmente, só de brincadeirinha, cortou o telefone novamente. A essa altura eu já havia tentado reclamar pela Internet. Depois de cerca de dois meses do envio do e-mail, recebo uma carta dizendo que este tipo de problema tem que ser resolvido, pasmem, por telefone! Telefone?! Acho que eles ficam jogando peteca com os pobres clientes, até que o sujeito se desespere, se suicide ou, como não tem alternativa, se submeta à tortura que eles nos impõem.

Eu, como tenho outra linha, posso ficar esperando e brigando. Posso até soltar os cachorros num texto publicado em Polemikos. Mas, e o pobre carioca que quer apenas ter um telefone em casa?

Aprendi uma coisa sobre o negócio da Telemar. O objetivo principal da empresa não é prover serviço telefônico. Também não é instalar fios mudos nas casas, como a moça da empresa tentou me explicar. O negócio da Telemar é destruir a minguada auto-estima do carioca. É acabar com o que resta do nosso orgulho. É acabar com nosso esforço em tentar fazer valer nossos direitos. A Telemar deve ser uma entidade do mal voltada para gerar cidadãos de segunda classe. O telefone entra nesta história apenas como instrumento da perversão desses canalhas que nos torturam.

Como disse a vocês, pelo menos eu posso reclamar. Não resolve, mas relaxa um pouco.

Nota: Pouco depois, a Telemar me colocou no Serasa por não pagar as contas do período em que ela me cortou o telefone. Entrei na Justiça contra a Telemar no Tribunal de Pequenas Causas. Ganhei vinte salários mínimos da empresa telefônica que torturava (tortura?) os cariocas. A Telemar agora é a OI. Esperamos que o serviço tenha melhorado.

A Máquina [Adriana Falcão, 1999, Editora Objetiva]

Oxente! Mas num é que eu fiquei impressionado com o livro dessa menina Adriana Falcão. A moça escreve direitinho, no mais belo estilo severinesco. Seu texto tem o meu sotaque. Pretensão minha? Certamente. Para tirar a dúvida, leiam o livro dessa nordestina honorária e depois comparem com minhas maviosas matérias em Polemikos. Continuar a lerA Máquina [Adriana Falcão, 1999, Editora Objetiva]

O Sexto Sentido [The Sixth Sense] de M. Night Shyamalan

A gente, como os fantasmas da história, só vê o que queremos ver. Ainda mais quando o diretor e o roteirista dão uma mãozinha. 

Depois do ridículo Bruxas de Blair, enfim o gênero terror trouxe algo de qualidade para as telas. O Sexto Sentido é uma boa surpresa para quem gosta de cinema no geral. Para quem curte tomar um bom susto, é puro prazer. Na sessão que assisti, o pessoal parecia ter ensaiado antes, o grito de medo saia bem afinado, todos berrando juntos.

A história do psicólogo infantil que tenta resgatar um fracasso profissional anterior curando um menino com sérios problemas mentais – e que problemas, o garoto tem o mau hábito de ver pessoas que já morreram – é contada com inigualável premeditação. O ritmo propositadamente lento da narrativa nos conduz com precisão pelo sofrimento dos atormentados médico, paciente e mãe da criança. Bruce Willis, no papel do Dr. Malcolm Crowe, até por ser Bruce Willis, é perfeito para o personagem. O menino ator Haley Joel Osment responde bem a um personagem infantil que necessita das expressões faciais corretas.

Sexto Sentido é envolvente e nos coloca no lugar certo para apreciar os esforços do Dr. Crowe para orientar o pequeno Cole no seu contato com os mortos. A mistura de suspense, terror, paranormalidade, fantasmas, sustos e mágica tem dosagem equilibrada para atingir o objetivo do filme. A lapidação realizada pela equipe do diretor Night Shyamalan nos roteiro e edição de Sexto Sentido fará com que não esqueçamos das dificuldades por que passa o personagem de Bruce Willis.

Depois do acerto de Ghost, do fracasso de Cidade dos Anjos, a utilização do tema “almas do outro mundo” para produzir bom exercício de cinema é um fato de destaque. A gente vê O Sexto Sentido e gosta. Fica na lembrança uma frase importante do filme, dita pelo pequeno Cole: – Os fantasmas só vêem o que querem. No caso de Sexto Sentido, eu acrescentaria: – Nós, os espectadores, também!

Observação: Daqui para a frente, por favor, só leiam os que já viram o filme!

Puxa, que bom poder comentar o filme sem ter que esconder o final!

Sexto Sentido não é um filme de terror. Se for para dizer qual o tema do filme, eu diria que é mágica. O filme trata da arte de esconder o fato principal com movimentos laterais, como aqueles que os mágicos fazem com uma mão enquanto, com a outra, escondem a moeda. Bruce Willis nos mostra isso no filme. E o diretor Night Shyamalan faz esse truque ao longo de todo o filme. É uma grande brincadeira de cinema. Um exercício de deslocamento de ponto de vista. Uma montagem onde o posicionamento do contador da história nos encaminha para uma leitura superficial e tradicional dos acontecimentos. Mas – essa é a mágica – a verdade da história é outra.

Sexto Sentido é filme para se ver duas vezes. Daqui a alguns meses, pegar a fita na vídeo locadora, se armar de pipoca e CocaCola, e acompanhar as narrativas das diferentes realidades: a visão da mãe, a visão do menino e, ainda, uma terceira, o ponto de vista do médico. Aí, vamos lembrar, com prazer, a cena do restaurante (didaticamente repetida no final); ou aquela do médico correndo atrás do carro do novo namorado de sua esposa; ou o médico no sótão vendo o namorado convidar sua mulher para uma viagem de fim-de-semana e tantas outras. O que vocês acharam da cena da mãe chegando com o filho e “deixando” o garoto na companhia do Dr. Crowe (Willis)? Por que naquela hora não estranhamos a mãe não cumprimentar o terapeuta?

Você sacou tudo antes? Eu não! Fui enganado direitinho pela mágica de Sexto Sentido. E olha que, no fundo, a história é a mesma de Ghost. O artista principal morre no início! Mas, a gente, como os fantasmas da história, só vemos o que queremos ver. Ainda mais quando o diretor e o roteirista dão uma mãozinha.

Sexto Sentido é filme para se ver duas vezes. Daqui a alguns meses, pegar a fita na vídeo locadora, se armar de pipoca e Coca Cola, e acompanhar as narrativas das diferentes realidades: a visão da mãe, a visão do menino e, ainda, uma terceira, o ponto de vista do médico. Aí, vamos lembrar, com prazer, a cena do restaurante (didaticamente repetida no final); ou aquela do médico correndo atrás do carro do novo namorado de sua esposa; ou o médico no sótão vendo o namorado convidar sua mulher para uma viagem de fim-de-semana e tantas outras. O que vocês acharam da cena da mãe chegando com o filho e “deixando” o garoto na companhia do Dr. Crowe (Willis)? Por que naquela hora não estranhamos a mãe não cumprimentar o terapeuta?

Você sacou tudo antes? Eu não! Fui enganado direitinho pela mágica de Sexto Sentido. E olha que, no fundo, a história é a mesma de Ghost. O artista principal morre no início! Mas, a gente, como os fantasmas da história, só vê o que queremos ver. Ainda mais quando o diretor e o roteirista dão uma mãozinha.

(Eugenia Corazon)