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Por que respeitar as Igrejas?

O filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, é o assunto do momento. O filme é extremamente violento e gasta toneladas de ketchup para mostrar, com muito sangue, o tormento de Jesus. Também cria polêmica e foi tachado de anti-semita ao mostrar os judeus como responsáveis ou, com participação ativa, no papel de mandar Jesus para a cruz. De um modo ou de outro, Gibson consegue ser falado. A besteira do sangue tira minha motivação para perder tempo vendo sofrimento por duas horas. A exposição de judeus – maculando sua imagem de eternos sofredores e perseguidos, por sinal, muito bem administrada pela indústria cinematográfica, cujo controle está com o capital judeu – gerou logo reação. É normal. Mas minha intenção não é falar da obra do cristão ortodoxo Mel Gibson. Só de falar em ortodoxo fico todo arrepiado e o estômago embrulha.

Pra ser sincero, estou pouco me lixando para os aspectos religiosos do filme. É apenas mais um negócio, um investimento, e quanto mais polêmica a obra criar, mais retorno financeiro vai produzir. A rigor, o assunto todo não me interessa. Indo mais fundo ao ponto: Religião não me interessa e tenho verdadeira repulsa a este ramo de negócio onde atuam um sem número de empresas vulgarmente chamadas “Igrejas” que, descaradamente, vendem aos incautos a intermediação com o divino. Um cretino poderia dizer que as Igrejas têm atividade social importante buscando manter quietos os pobres de espírito e de bolso. Mas pra que serve dar atenção e dinheiro a estas empresas, entre as quais as modernas caça-níqueis chamadas Igrejas Evangélicas? Elas estão falhando na atividade mais importante que lhes cabe: manter os miseráveis quietos e permitir que a classes média e alta usufruam de sua confortável qualidade de vida sem serem importunadas pelos “menos afortunados”, que quer dizer “os de menor fortuna”, ou seja, “os pobres”. A carência humana, que não consegue entender sua existência sem apelar para inventar deuses, é explorada por estes estelionatários das Igrejas que vendem sua intimidade com Deus com a mesma competência que seus colegas menos espertos vendem para os otários terrenos no meio da Lagoa Rodrigo de Freitas. Ainda chegará o dia em que o Procon vai cair em cima dessas empresas.

O golpe de “vender Deus” vem de longa data e as Igrejas estão bem estruturadas. No quesito sobrevivência empresarial, por exemplo, elas mostram rara competência. Percebendo que a melhoria das condições da sociedade diminui seu mercado, se esforçam para ampliar sua base de consumidores, agindo com eficiência para instalar o caos, e aumentar o número de ignorantes. Vejam o que acontece com o controle de natalidade no Brasil. O país precisa reduzir seu crescimento demográfico de modo a compatibilizar sua população com o crescimento da riqueza que conseguimos gerar. Menos filhos proporcionariam mais oportunidades de trabalho e educação para eles. Mas, o que acontece? Os rebanhos de carolas e crentes em geral, fertilizados pela oposição que toda Igreja faz ao planejamento familiar, geram um filho depois do outro. As meninas, parindo a partir dos 13 anos, são proibidas pelas Igrejas de fazer abortos. A camisinha é criticada pela Igreja Católica. Resultado: o Brasil vê crescer um exército de sem comida, sem casa, sem trabalho, prontos para serem manipulados pelas Igrejas. Como o mundo está cheio de espertos, os políticos, diretamente representando as organizações religiosas ou apenas pegando o barco da manipulação dos miseráveis, se juntam ao esquema e passam a defender os interesses das Igrejas, impedindo leis mais razoáveis e praticando o paternalismo político, com destaque para restaurantes de R$1,00.

Vou sair de minha quieta indignação e propor ao Tirésias da Silva, se ele sair candidato na próxima eleição, que defenda a colocação das Igrejas na ilegalidade. Vamos aproveitar o fechamento dos bingos e fechar este monte de templos legalizados que dão prejuízo social ao país. Meu amigo, quer rezar? Fique à vontade, mas vai rezar na informalidade de sua casa. Fica com Deus!

Vale-tudo por dinheiro (e poder)

mas qual deles pode nos prejudicar?

Sempre valeu, a diferença é que, nos dias hoje, nossa sociedade está explicitando aquilo que teimávamos em acreditar ser um fenômeno restrito às platéias do Silvio Santos. Lá, os espectadores do programa – gente humilde – lutam para disputar as notas de R$50 que o apresentador joga para o alto. Continuar a lerVale-tudo por dinheiro (e poder)

Mulher do Ano Polemikos 2003

será a Benedita?

Antes que o ano 2004 acabe temos que escolher a Antes que o ano 2004 acabe temos que escolher a Mulher Polemikos 2003. Sejamos metódicos. Excluímos as bundas e rostos bonitos, procedimento este que restringe radicalmente a pesquisa. No meio empresarial não vimos destaque. Na área de atuação social, Dona Zilda Arns apareceu muito na mídia que resolveu descobrir seu trabalho de toda a vida, já reconhecido aqui e lá fora. A solidez e a dedicação de mais esse Arns, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança, que atua em mais de 1.500 projetos na área de saúde e educação, a qualificam para ser a mulher de destaque de 2003 para Polemikos. Mas não nos precipitemos … Continuar a lerMulher do Ano Polemikos 2003

Bin Ladens e Fernandinhos Beira-Mar

Senhores: Peço desculpas aos melodramáticos, mas a tragédia americana de 11 de setembro não me sensibiliza tanto assim. As imagens belíssimas – há beleza dentro da estética da destruição – que a mídia americana usa para mobilizar o povo americano, depois do excesso de repetições, já me causam tédio. Sabemos que o objetivo maior desses rituais de sofrimento é por a opinião pública americana mais favorável a uma tão anunciada invasão do Iraque. Também devemos lembrar que este ano tem eleição nos EUA e os republicanos liderados (?) por Bush não podem perder a oportunidade de emocionar o público e buscar votos.

E o que eu tenho a ver com isso? Não faço parte da corte. Não tenho green card. Não vivo nos palácios de Washington. Por que os problemas dos americanos têm que sobrar pra mim? Tenho que sofrê-los em tempo real, ao vivo e em cores? O ataque terrorista do ano passado faz parte dos custos de ser o centro do poder mundial. Boa parte do que a humanidade está vivendo hoje, seja para o bem ou para o mal, é definida pelos EUA. Sua economia determina o que devemos consumir. Quando sua economia freia, nossos vagões se esborracham e países quebram. Quando eles disparam na fartura, costuma sobrar algumas migalhas para os vizinhos. Em tempo: somos um desses vizinhos necessitados. Poderosos e arrogantes, os EUA não olham pro lado na hora de decidir seu caminho. Eventualmente, passam por cima de países menos avisados, às voltas com problemas menores, tais como, economia fraca, corrupção, traficantes de drogas como um poder paralelo, astronômicas dívidas interna e externa e outras mazelas dos menos dotados. São protecionistas quando lhes interessa e pregam o livre mercado se lhes é oportuno. Se vale a pena para as empresas que elegeram Bush aumentar poluição para ter mais lucros, danem-se os protocolos de Kioto ou seja lá qual for a iniciativa de preservação do meio ambiente, os EUA vão poluir com desenvoltura. Como guardiães da humanidade, os EUA ditam o modelo de governo e economia que o mundo deve seguir. O FMI, por exemplo, serve para zelar pela imposição do receituário econômico aos menos favorecidos. Se o remédio der errado, problema do paciente. Com relação aos governos, os EUA aplicam suas regras com flexibilidade, conforme seus interesses. Por exemplo: à Cuba, toda cobrança de democracia; à ditadura da Arábia Saudita, nadando no precioso petróleo, toda compreensão pelo regime absolutista da família real. Um belo exemplo de dois pesos, duas medidas.

O fato é que os EUA sofreram gigantesco revés em 11 de setembro de 2001. Depois, em retaliação, destruíram um país: o Afeganistão. Porém, até hoje, não conseguiram encontrar os extremamente competentes mentores do atentado. Os terroristas foram completamente bem sucedidos. Colocaram os EUA em pânico, paralisaram o país, mudaram o mundo, chacoalharam a economia mundial, transformaram viajar de avião em um sofrimento e acabaram com a falsa sensação de segurança em que vivíamos. Apesar de todo o poder e tecnologia, os americanos não conseguiram prender nem mesmo quem enviou as cartas com antraz que mataram cinco pessoas.

Fico assistindo enfadado o ritual do topo do mundo chorando seus mortos. Toda a pompa não me contagia. Tenho pena dos infelizes que morreram, mas eles morreram muito longe de mim e de meus problemas tão próximos. Eles não conheceram balas perdidas ou guerra do tráfico. Estou de saco cheio de ver os poderosos se lamuriando. Meu problema está aqui e foram criados pela incompetência dos meus poderosos. Não precioso chorar pelos poderosos de além mar. O desequilíbrio social no Brasil está no limite. Talvez o 11 de setembro de 2002 seja realmente relevante para o Brasil, mas em virtude da rebelião que explodiu no presídio Bangu I. Ali, o crime se organiza e ocupa descaradamente o vazio de poder deixado pelos governos medíocres que se sucedem. Pode ser que nossa versão de 11 de setembro esteja por chegar. Qualquer dia um morro desce e cria uma tragédia no asfalto. Já desceu, mas ainda não chegou à Zona Sul. A tragédia de Tim Lopes foi pouco para mobilizar o país. Esperamos que nosso Bin Laden, cujo nome é Fernandinho Beira-Mar ou Elias Maluco, não seja tão eficiente como os terroristas árabes.

– “As exigências justas de paz e segurança serão cumpridas, ou uma ação será inevitável. Não podemos ficar de braços cruzados sem fazer nada enquanto os perigos se acumulam.” Quem fez esta afirmação, infelizmente, não foi um governante brasileiro preocupado com o problema do poder paralelo do tráfico, foi o presidente Bush se referindo ao Iraque.