Vale-tudo por dinheiro (e poder)

mas qual deles pode nos prejudicar?

Sempre valeu, a diferença é que, nos dias hoje, nossa sociedade está explicitando aquilo que teimávamos em acreditar ser um fenômeno restrito às platéias do Silvio Santos. Lá, os espectadores do programa – gente humilde – lutam para disputar as notas de R$50 que o apresentador joga para o alto. Se observarmos bem, todo mundo age da mesma forma, o que muda é o valor da nota. E a nota de grande valor no momento é a celebridade. Ser famoso traz dinheiro ou os prazeres de quem tem dinheiro. O vale-tudo da fama atingiu picos de audiência, neste início de ano, com Luma. A eterna Luma – rainha das armações para se manter na mídia – deu show neste carnaval. Seu caso não podia ser mais mitológico: a musa maior da galera, casada com uma fortuna de dinheiro, se encosta-se a um bombeiro, que se mostra todo solícito para acender seu fogo ou conter suas chamas. Nossas fantasias se soltam imaginando o feliz agraciado da corporação que tira tardes de folga para se encontrar com a monumental Luma. Bem, o marido Eike ficou corno na foto. Nada de doloroso. Os muito ricos estão acima dessas coisas. Suas relações com o dinheiro chegam a ser mais íntimas do que com as esposas. Já se disse por aí que o surgimento do feliz bombeiro era orquestrado pelo marido para enfraquecer a brasa da esposa na discussão do divórcio e o valor da pensão. Nós, ruins de bolso, não entendemos nada disso, não é? A mulher deu, é corno, não se fala mais nisso.

Mas, enfim, o quê se depreende desses acontecimentos? Fácil: para aparecer, para ser celebridade, por vários carnavais ou um só que seja, a ética está extinta. O major Albucacys que passou de bombeiro a modelo de calendário, evoluiu para oportunista de carteirinha e apareceu no Fantástico (recebendo cachê da Globo, interessada em botar lenha na fogueira, aumentar a baixaria e o Ibope do seu programa) e mostrou as mensagens que Luma lhe enviou. Chegaram a recriminá-lo pela canalhice. Qué qué isso cumpadre? Esta é a chance do major tirar o corpo depilado fora dessa vida medíocre de apagar incêndio em sobrados do Rio de Janeiro. Imaginem a grana que ele pode levantar comparecendo a programas classe B, fazendo fotos para sites (começa com sites mais leves, depois tira foto para os sites gay), ganhando para participar de festas (se o imbróglio tivesse acontecido antes do carnaval ele iria para o camarote da Brahma ou Schincariol) e, por último, trabalhando como garoto de programa de madames que querem fantasiar serem a Luma do bombeiro. Acho que com todas estas atividades potenciais, enquanto ele estiver nos seus dias de fama, dá para tirar, por baixo, R$500 mil. É um trocado, não é? Notem que todos saem ganhando: Luma mostrou ser caliente e vai sair do casamento cheia da grana, o major bombeiro vai tirar seu trocado e o Eike Batista será o novo solteiro rico das paradas, trazendo de quebra a fama de corno, que lhe dará uma áurea de carência que muito atrai as mulheres.

Então surgiu o Zeca Pagodinho! Para mostrar que este negócio de fidelidade e ética está por baixo, ele assumiu o papel da Luma dos bebedores de cerveja. Enquanto ganhava uma fortuna fazendo propaganda da Schincariol, tinha encontros às escondidas com sua amante, a Brahma. Bem, já que a grana da Nova Schin já foi faturada, por que não cuspir no chope da Schin, entrar na conversa do Nizan Guanaes e passar para o lado da Brahma? Dizem que o Nizan falou para Zeca Pagodinho: “— Eu tenho a única coisa que eles não podem te oferecer, a Brahma, a cerveja que você toma.”. Será que foi esse o papo do bombeiro com a Luma na penumbra da tarde em um quarto qualquer de Botafogo: “— Eu tenho a única coisa que ele não pode te oferecer.”. Só faltou a Luma usar o discurso do pagodeiro, que disse que estava cansada de beber escondido, e dizer “que não agüentava mais ter que comer escondida aquilo que gosta”.

A ética está sendo triturada em todas as dimensões. Para não me delongar, se ética valesse, e o PT fosse sério, a cabeça do José Dirceu deveria ter rolado. Isso, se o PT tivesse o apreço pela ética que alardeava antes de chegar ao poder. Talvez o PT não tenha nem quadros para substituir o superministro. Acho que não tem nenhuma das duas coisas. A ética do PT é ficar no poder do jeito que der. Que se registre: é o objetivo de qualquer partido brasileiro. As CPIs, que ele tanto pedia quando era oposição, agora são a imagem do demônio. Sobre Waldomiro, as explicações não aparecem. O PT empurra o assunto com a barriga para ver se algo de novo ocupa a mídia.

Disso tudo, fica a lição: vale tudo para conseguir dinheiro ou poder. Como última reflexão: entre as atuações de Luma, do belo bombeiro, de Zeca Pagodinho e do PT, vocês não acham que o problema de falta de ética do partido do governo é mais crítico para o Brasil do que as estripulias sexuais de nossa musa carnavalesca ou a preferência etílica do pagodeiro?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.