O Ensaio Sobre a Cegueira [Blindness] de Fernando Meirelles

Se não me perco no tempo, foi na Idade Média, houve uma batalha nos confins da Europa em que os vencidos foram cegados aos milhares e enviados de volta para seu povo. Imaginem. Uma multidão de pessoas passando a viver sem o recurso da visão. A loucura da situação me impressionou. O livro o Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, trata da possibilidade de uma cidade, ou, talvez, o mundo todo ficar cego. O livro é muito bom. Foi o empurrão final para levar o Prêmio Nobel ao autor português. É idéia genial usar a cegueira como mecanismo que liberta a barbárie humana. O ensaio de Saramago mostra de maneira cabal o quão frágil é o equilíbrio de nossa “civilização”. É assustadora a situação limite que a espécie humana se depara quando um recurso amortecedor das tensões sociais e pessoais lhe é tomado. O autor português não é otimista quanto à sanidade humana. Na verdade, a tragédia da cegueira serve para realçar o melhor e o pior das pessoas. Não é livro fácil. O filme também não é.

O tubo de ensaio de Saramago descreve o que acontece com as pessoas quando ocorre uma epidemia de cegueira. Saramago utiliza uma solução muito elegante: as pessoas passam a ver (ou não ver) tudo em um branco leitoso. É a cegueira “branca”. Quando a doença se espalha, a vida das pessoas é jogada no inferno da impotência. O autor utiliza o recurso de deixar a mulher de um oftalmologista como a única pessoa que não perde a visão. Ela funciona como nossos olhos para apreciar a desgraça. As autoridades tomam a providência mais asséptica para tratar a epidemia: trancam-nas num hospício abandonado. Não se iludam. Saramago não foi tão criativo. Os cubanos fizeram o mesmo com os primeiros casos de AIDS que surgiram na ilha comunista.

A mulher que não perde a visão é muito bem interpretada por Julianne Moore, cuja pele branquíssima reforça as imagens da cegueira branca. Sua solidão como a única que “vê” é magnífica. O grupo de pessoas que o filme acompanha tem várias etnias e nacionalidades, o que dá um quê de universalidade ao tema. Um casal de japoneses, que falam japonês durante o filme, parece ser uma deferência com produtores japoneses que participam do projeto do filme. A atriz brasileira Alice Braga faz uma bela prostituta. O ator americano Maury Chaykin, conhecido coadjuvante, interpreta um contador cego que vê seu dia de superdotado chegar. Danny Glover também segura bem seu personagem. O personagem de Gael García Bernal poderia ser alguém mais marcante. Os traços finos de Bernal diminuem a força do terrível personagem. Talvez tenha sido esta a intenção do diretor: criar o contraste.

O diretor Fernando Meirelles conseguiu ser o primeiro a filmar uma obra de Saramago. Houve outro livro dele filmado, mas foi uma versão menos comercial, quase amadora. Talvez tenha conseguido pegar o mais instigante de seus livros. Meirelles foi bastante feliz em utilizar o branco como contraste com escuridão moral que se abate sobre os civilizados. O filme utiliza imagens superexpostas que propagam a proposta do autor de que as pessoas passem não ver tudo em branco. O isolamento dos doentes no hospício é o ponto alto do ensaio. A tensão é angustiante. Dá vontade de desistir e sair do cinema. Imaginem o sofrimento de um morador de uma comunidade cujo poder é assumido por uma milícia. Não sei o que é pior. A cegueira criada por Saramago é ficção. Já as milícias …

O terço final do filme parece ser um refresco que o diretor oferece a platéia. Uma imagem idílica de que os homens podem se unir na adversidade. É estranho como esta parte do filme parece mais fantasiosa que a violência que acontece dentro do hospício quando o lado negro da humanidade prevalece.

Acho que Meirelles se saiu muito bem. Fiquei com uma pequena dúvida. O livro tem um personagem, um velho, que a cegueira da promiscuidade permite que tenha relações com uma jovem prostituta. Esta cena não acontece no filme. Entretanto, no final, a prostituta faz referência ao fato. Deve ser devido à grande quantidade de cortes e remontagens que os diretores fazem, acabando por deixar algumas brechas na história. Mas não se preocupem com detalhes, o filme é para ser visto.

1 comentário a “O Ensaio Sobre a Cegueira [Blindness] de Fernando Meirelles”

  1. o que é cegueira branca? porque as pessoas ficaram cegas?porque a mulher não fica cega na quarentena?porque existe só uma criançainfectada?qual a intenção?o que fez as pessoas enchergarem novamente?

    Respondendo: Cegueira branca? Não existe essa doença. Saramago utilizou a brancura para contrapor à escuridão, normalmente associada à cegueira. A mulher não ficou de quarentena pois foi essa a alternativa escolhida pelo autor para que a história tivesse um elemento para encaminhar as ações. Foi solução boa. A mulher é “condenada a ver” toda a barbárie dos humanos colocados numa situação instável da perda da visão. É mais que um ensaio sobre a cegueira, é sobre a miséria humana. As pessoas se curam no final? Por quê não? O livro e o filme mostram até onde (se é que há limite) pode ir a degradação humana se ocorrer um desiquiíbrio em nosso fraco sistema. O final do filme é mais otimista que do livro. O grupo conseguia avançar com alguma fraternidade, apesar de tudo. Depois de todo o desespero, é bem recebida uma mensagem de que há alguma chance para nós.

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